domingo, 18 de novembro de 2018

DIONÍZIO COSME DO APODI: NUNCA VI REPRESSÃO POLICIAL TRANSFORMAR A REALIDADE DE UM LUGAR PARA MELHOR

Nunca vi repressão policial transformar a realidade de um lugar para melhor. Isso não significa que sou contrário ao trabalho da polícia, de forma alguma. Mas a gente vive um momento de tanta conversa rasa, que precisa justificar o tempo inteiro o que se fala, pra não correr o risco da conversa se espalhar de uma forma fora do contexto em que está inserida.
Voltando para a frase inicial, ontem assisti a uma palestra de um ex-capitão do BOPE do Rio de Janeiro aqui em Apodi. Ele falava sobre o Bope e quanto mais ele falava, mais ficava claro, para mim, que esse não é o caminho. Precisamos ter ações da polícia para inibir a bandidagem? Sim. Mas isso é paliativo. Sempre foi e sempre será. Jamais resolverá o problema na raiz. O BOPE (ou qualquer polícia) pode prender quantos traficantes puder, matar quantos achar que devem matar, mas isso jamais resolverá, porque as desigualdades sociais de nossa sociedade continuarão "formando bandido" pra dar e vender. Se essas ações do BOPE do Rio de Janeiro são tão efetivas por que o Rio de Janeiro encontra-se na situação em que está? É fato que a população das comunidades, onde o tráfico comanda, não aprova as ações repressivas da polícia lá, porque quem mais sofre é a própria população, refém de toda a violência dos bandidos e da polícia. Repito pra não ser mal interpretado: NÃO SOU CONTRA POLÍCIA. Mas acho muito perigosa essa forma de pensamento em defesa de investimento em polícia (claro que precisa ter investimento) e que a cultura não seja obrigação do poder público, como foi claramente defendido pelo cara do BOPE. Ora bolas! A cultura, como saúde, segurança, educação, é um direito garantido em nossa Constituição. O dinheiro público precisa sim ser investido, também em Cultura. Não sou de acordo que o dinheiro público (federal, estadual ou municipal) seja investido em algo que já tenha mercado. Isso a iniciativa privada é capaz de gerir. Mas o que não possui mercado o poder público tem obrigação sim de investir, até como garantia de preservação. Por exemplo: Aviões do Forró e Ivete Sangalo têm mercado e não precisam que o dinheiro público chegue ali, porque o privado dá conta. Mas um grupo de teatro com 10 surdos que tenta se inserir numa sociedade que lhe é contrária, o poder público tem obrigação. Um grupo musical feito exclusivamente por mulheres, dentro desta sociedade machista, colocando-as como protagonistas culturais, o poder público tem essa dívida e precisa reparar.
O ex-capitão falou também na Lei Rouanet e vou tentar explicar para as pessoas que queiram, para ninguém ficar reproduzindo o que alguém falou porque é a forma mais fácil de indignação. Eu já aprovei muito projeto por Petrobras, Banco do Nordeste, Ministério da Cultura mas nunca me utilizei da Lei Rouanet. Tenho amigos e conheço grupos que já tiveram projetos executados através desta lei e que foram de grande valia para quem fez e para quem recebeu os projetos. O Grupo Galpão de Belo Horizonte é um dos grupos mais bonitos do país e precisa sim do investimento público. Quanto cineasta novo apareceu através de projetos desta lei, pois cinema é uma arte cara, e sem apoio público como um desconhecido vai fazer um filme, pois a iniciativa privada dificilmente apoia gente desconhecida?
O problema da Lei Rouanet é que o produtor cultural aprova seu projeto e recebe um certificado para poder captar os recursos junto às empresas. Chegando um ilustre desconhecido e a Cláudia Leite, ninguém tem dúvidas de quem a empresa escolhe, né? Então, O maior defeito da lei é dar o poder de escolha do projeto para as empresas que visam o mercado, a exibição da sua marca. O estado enquanto poder é que deveria ter esses mecanismos. Aí as empresas ficam 'fazendo caridade' com dinheiro público. Mas não é porque isso acontece que a gente precise acabar com tudo. Deu carrapato nós vamos matar o boi? Não. Vamos corrigir isso, ouvir quem entende e necessita dela, para podermos modificá--la para que atenda a quem deve atender.
Eu acompanhei de perto o trabalho sociocultural do grupo Nós do Morro, no Morro do Vidigal no Rio de Janeiro. Eles não acabaram com a violência no morro porque isso não é competência deles (é uma série de fatores, e não é simplório como o capitão do BOPE insinua, que é prender, manter preso e aumentar a pena - isso deve ser feito mas não resolve). Mas o Nós do Morro conseguiu colocar num lugar onde só existia violência, a arte, envolvendo todo a comunidade. As coisas não são tão simples, e desconfio do que acontece na base do grito.
Evito polêmica porque sempre prefiro o debate presencial. Mas eu tinha acabado de falar, ontem à noite, sobre empreendedorismo cultural, citando exemplos de municípios pequenos no Brasil, que eu conheço, que transformaram sua realidade a partir de investimento em cultura, aí chega um cara na minha casa, onde realizo um trabalho sério, a longo prazo, e diz que o poder público não é pra investir em cultura. Não posso deixar passar sem dizer nada, pelo menos a meia dúzia de pessoas que acompanha a gente nessa rede. Espero, sinceramente, que prefeito e vereadores que estavam ali, não se deixem influenciar pelo capitão. Que a nossa cultura apodiense, que é rica e precisa de valorização, tenha investimento público para ocupar um lugar que é dela. Somos o berço da cultura potiguar e precisamos ter muito zelo por isso. 

Abraços de Dionízio do Apodi!

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